24 dezembro 2012

Feliz Natal!



Organiza o Natal
Carlos Drummond de Andrade

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

***

Um Natal muito especial para todos nós! Obrigada por passarem por aqui, mesmo quando eu mesma estou longe :)

14 dezembro 2012

Vi: Pecados íntimos



Toc, toc, alguém aí? 

Ou melhor, alguém aqui? rsrs

Eu sei, eu sei, sou muito nó-cega! Desta vez nem vou falar nada! Mas vou comentar um filme que vi há algum tempo e do qual gostei muito.

Isabela Boscov é a crítica de cinema da VEJA. Tem gente que a adora, tem gente que detesta. Eu, normalmente, gosto das críticas dela e me lembrei que, quando o filme saiu nos cinemas - em 2006 - eu tinha lido uma crítica bacana dela. Resolvi procurar no site da revista e a encontrei e, curiosamente, a Boscov citava Betty Friedan, psicóloga estadunidense que eu citei na minha monografia da pós. 

Em seu livro "Mística feminina", de 1963, Friedan fala da insatisfação que começou a tomar conta das mulheres, principalmente nos EUA onde ela faz a sua pesquisa, quando estas mulheres parecem ter tudo no pós-guerra. Friedan chega a chamar isso de "o problema sem nome". 

Em "Pecados íntimos", Sarah - Kate Winslet - conhece Brad - Patrick Wilson - em um parquinho onde ela leva sua filha de 3 anos todos os dias. No meio das outras mães, Sarah é uma negação, esquecendo de coisas simples, como o lanche da filha. Sarah e as outras mães aparentemente têm tudo que faz uma mulher feliz: filhos fofos, casas confortáveis, maridos bem empregados... Mas existe aquele comichão de "há algo a mais" que, principalmente Sarah sente quando Brad leva seu filhinho ao parque. Supostamente estudando para sua terceira prova da "OAB" - na verdade ele passa o tempo que deveria estar na biblioteca, vendo uma molecadinha andando de skate -, Brad é dono de casa, casado com a linda Jennifer Connelly, dependente da mulher até pra assinar as revistas que gosta! 

Brad e Sarah logo começam um caso, mais ou menos no mesmo tempo que ele reencontra um conhecido, agora ex-policial, que passa o tempo todo perseguindo um pedófilo recém saído da prisão. As histórias vão todas se entrelaçando - adoro filmes assim! - e não tem como a gente não se envolver com cada uma, com simpatia ou não, até porque cada personagem apresenta mais do que uma faceta. Sarah alterna momentos de completa lucidez com outros de quase demência que vão além do fato de estar apaixonada. Brad... dá vontade de abraçar, de ajudar a estudar mas também de dar uns tapas, pra crescer logo! Ronnie, o pedófilo, é asqueroso, mas emociona com o amor que sente pela mãe. Larry, o ex-policial, é outro atormentado. 

Falando de outro livro, Em "Divã", da Martha Medeiros, há um momento em que Mercedes conta ao seu analista que, quando visitava um doente com sua melhor amiga, o doente morreu e ela disse à amiga: "Precisamos chamar algum adulto!", imediatamente se dando conta de que as duas já passavam dos 40 anos, ou seja, não eram mais crianças! Assim são os personagens de "Pecados íntimos": as "criancinhas" do título original, são muito mais esses adultos vulneráveis, cada um de uma forma, cada um com sua fraqueza e inaptidão pra lidar com o mundo do jeitinho que ele é, do que as crianças ameaçadas por Ronnie, o pedófilo. 

Muito bom o filme!