21 setembro 2011

Você sabe o que é um "scammer"?


Eu fico tanto tempo sem escrever que, quando volto, fico com vergonha, pode?

Em minha defesa quero dizer que andei muito ocupada e sem nada de interessante pra escrever e que ando visitando os blogs que curto mas NÃO CONSIGO comentar há semanas! Sempre dá erro.

Mas, vamos ao que me motivou voltar a escrever um post. E senta confortável porque a história é longa mas muito séria e importante de ser conhecida.

Vocês já ouviram falar em scammer ou scam?

Scam, traduzindo meia-boca do original inglês, é um golpe, trambique, cambalacho. Scammer é quem o pratica. Na internet os scams mais conhecidos são aqueles golpes que com certeza vocês já conhecem de receber um email dizendo que tem um dinheiro em um banco africano e que você foi escolhido pra ficar com aqueles milhões. Já não recebeu um desses emails?

Mas existe mais um tipo de scam que tem se alastrado e que eu conheci este final de semana, da forma mais dolorosa: quase sendo vítima dele. É o scam romântico.

Se por um lado eu me envergonho de ter sido enrolada por um bom tempo, eu acho importante esparramar a coisa porque não encontrei nenhuma informação em português sobre o assunto e, pior, tem muita, muita gente no mundo inteiro sendo vítima do golpe!

Resumindo é o seguinte: você conhece um moço/um uma moça em um site de relacionamentos e a pessoa logo se diz apaixonada e é toda fofa com você. Quer casar, quem vir te ver, não vive mais sem você. A foto pode ser um modelo mas pode ser também de um cara normal, simpático. A pessoa tem bom emprego - normalmente na construção ou área petrolífera - e, invariavelmente, está trabalhando, ou indo trabalhar na Nigéria - ou, mais raramente, em Gana. Depois de um tempo, já na Nigéria, essa pessoa - que tem um passado de perdas dolorosas, no meu caso era a esposa que morreu de câncer de mama e a mãe com remissão de um câncer no cérebro - sofre um acidente ou é roubado... E a única pessoa a quem pode recorrer é você porque não tem família, ou não tem como contatá-los. No meu caso, foi um acidente de carro no caminho pro aeroporto voltando pra Inglaterra.

Quando um médico me ligou contando do tal acidente, a luzinha da desconfiança que sempre estava meio em alerta no contato com essa pessoa, acendeu forte. Como pode alguém ser vítima de tantas coisas ruins ao mesmo tempo? Como um médico pode ser tão prestativo? O consulado britânico sabe dessa pessoa hospitalizada? Por que o hospital não consta na lista de hospitais nigerianos? Por que o telefone do tal hospital nunca funciona mas o do médico sim - médico este que trabalha 24h/dia!

Liguei na Embaixada Britânica em Brasília e a moça perguntou se eu conhecia a pessoa pessoalmente porque havia um golpe assim comum na Nigéria. Opa, mais suspeito ainda, não?

Bom, a Angelice, preocupada comigo, passou o fim de semana pesquisando e descobriu CENTENAS de histórias muito parecidas! Na verdade aquela pessoa simpática da foto é outra vítima do golpe porque teve sua foto roubada. Quem conversa com você é um nigeriano FDP em uma lan house no seu país, dando o golpe, tentando tirar dinheiro de você!

"Mas peraí, Sheila, quando e como te pediram dinheiro?"

A primeira vez foi logo que a pessoa teria chegado na Nigéria. O cartão dele não funcionava no país e ele me pediu um dindim emprestado até que a empresa o pagasse. Pensei, repensei, confabulei com amigas... e fiz de conta que não entendi o pedido, até porque sempre disse que não tinha dinheiro, que era pobre de marré deci - tá, nem tanto, mas nunca disse o que tinha!

A segunda vez foi mais sutil: a pessoa não conseguia comprar passagem pela internet pra voltar pra casa. Na cara de pau, sugeri que fosse direto no aeroporto, que devia ser problema com a conexão do hotel e tals.

E a terceira, e mais aviltante, foi depois do tal acidente. Neste ponto, já sabendo da história dos scammers nigerianos, eu só esperava a tal cobrança pra confirmar tudo. E ela veio através de email do tal médico solícito. Dava pouco mais de US$ 2500, contando uma cirurgia pra retirada de coágulo, medicação, etc. Minha resposta foi um "hahaha" seguido de que já sabia que era golpe - e, tá, completei com um "go fuck yourself".

O moço ainda me ligou, mandou email dizendo que não era o que eu pensava que ele fosse mas segui a recomendação indicada por sites sérios: não dê bola! Não fale nada que possa ajudar essa pessoa a aprimorar seu golpe com alguém mais inocente.

Dessa história toda o que mais me magoou foi ter me preocupado com alguém que mentia. Foi ter perdido o sono com dó da pessoa sozinha em um país estranho. Foi ter quase me sentido culpada quando desconfiava. O tipo me ligou do tal hospital chorando de madrugada! Foi o pior momento da história.

Tô contando tudo isso aqui porque eu sempre me achei muito esperta e acreditei nessa pessoa por quase três meses! E, o pior, eu tenho lido histórias de pessoas que perderam muito, mas muito dinheiro com histórias parecidas. Ou preocupadas porque mostram pros amigos que estão envolvidos que é tudo mentira e a pessoa, apaixonada, coitada, não acredita.

Na dúvida se você tá se envolvendo com alguém assim, alguns sinais muito comum em repetidos casos são:

- A pessoa se diz estadunidense ou inglesa mas o inglês escrito é podrinho;
- O sotaque idem - mas como o moço me dizia que tinha nascido na Índia e vivido lá até os 8 anos, achei que podia ser isso;
- Eles sempre têm dinheiro. Mas acontece um problema emergencial que o faz te pedir ajuda;
- A história da família é sempre trágica;
- Sempre, sempre, sempre a figura já está ou vai pra Nigéria - ou Gana; *
- Webcam pode até rolar, mas as imagens, depois, pensando bem, são suspeitas;
- O amor é à primeira vista: você falou "oi" e a criatura se apaixonou!

Não vou colocar foto ou nome do dito-cujo aqui porque isso eles mudam com frequência e como já coloquei em lugares específicos pro assunto, não quero dar mole pro neguinho.

Quem quiser saber mais, visite os sites www.romancescam.com e www.romancescams.org

Muito importante: JAMAIS mande dinheiro pra quem você não conhece! JAMAIS dê endereço ou conta bancária! O tipo tentou me convencer que iria me mandar um dinheiro - um valor vultuoso - e que precisava dessas informações minhas! Não dei, desconfiada e assustada.

A coisa é séria, gente: em 2005 uma matéria da VEJA dizia que a terceira fonte de entrada de dinheiro na Nigéria era através de scams! O país é absurdamente corrupto e, por mais que até tenha orgão lá que tente pegar esse povo, a coisa deve ser pior ainda do que seria no Brasil. E não existe volta pra este dinheiro!

Fiquem à vontade pra passar adiante essa história, respeitando a fonte, claro.

Atualizando, em 11/02/2014: O scammer pode também dizer que está em outros países africanos ou asiáticos. O melhor é desconfiar sempre, principalmente se a pessoa diz ser quase sozinha no mundo e ter muito dinheiro que, de repente, ficou indisponível.

12 setembro 2011

Sobre os dez anos de uma tragédia (Mulher 7x7)

Esse negócio todo de 11 de setembro foi bem cansativo nos últimos dias e ontem eu li um post no Mulher 7x7 que fala tudo o que eu penso sobre a data e o fato. Quis dividir com vocês:

Todas as vítimas do onze de setembro
Martha Mamede Batalha

Trabalho a menos de dois quilômetros de onde ficavam as Torres Gêmeas, mas vou começar este post por um lugar muito mais longe: Fiji. Em 2007, quatro homens apareceram no salão de beleza onde Lydia Qeraniu trabalhava como cabeleleira e ofereceram-lhe uma proposta irrecusável – trabalhar em um hotel luxuoso em Dubai, com um salário cinco vezes maior do que ela fazia em Fiji. O avião para Dubai sairia em poucos dias, ela só teria que entregar seu currículo, passaporte, passar por exames médicos e pagar 500 dolares para uma firma de recursos humanos local. Assim como Lydia, outras mulheres receberam a mesma proposta. Elas estavam tão animadas com a possibilidade de mudança que não conferiram que o visto em seus passaportes não era de trabalho, mas passes para estar no país por 30 dias. Elas também não sabiam que Dubai seria apenas a primeira parada. O destino final eram as bases militares americanas no Iraque e Afeganistão.

Lydia faz parte dos 70 mil profissionais recrutados em países do Terceiro Mundo e que hoje trabalham nas bases militares americanas no Oriente Médio. Eles são selecionados por empresas locais, contratadas pelo Pentágono. Quando chegam, descobrem que vão ganhar bem menos do que o combinado, têm seus passaportes confiscados e são mantidos em condições sub-humanas de trabalho. A Lydia foi prometido um salário entre 1500 e 3800 dólares. Na realidade, o contrato de trabalho, lhe dava um salário de 350 dólares por mês para trabalhar sete dias por semana, 12 horas por dia. As férias seriam a passagem de volta para seu país, depois de terminar o contrato.

Alguns meses depois de começar a trabalhar no Iraque, Lydia foi violentada por um supervisor. Ela foi encontrada pela repórter que escrevia a reportagem sobre ela e outros trabalhadores em bases militares chorando em posição fetal, no chão do seu quarto. Segundo Lydia, o sexo não consensual se tornou rotina.

Estas informacoes estavam em um artigo da revista New Yorker, do dia 6 de junho deste ano, escrito por Sarah Stillman. Eu li a reportagem algumas semanas depois da publicação, em cima de um aparelho elíptico. Queria apenas estar em dia com as minhas leituras. Mas, quando terminei o artigo, me dei conta de que nas semanas que separavam a publicação do momento em que eu lia a reportagem eu não havia escutado qualquer repercussão, em nenhuma outra mídia, sobre o que eu achava serem acusações extremamente graves. Tive vontade de sair do aparelho e correr pela rua, revista em punho, gritando: Você viu o que está escrito aqui? Os americanos não podem tratar gente humilde como fralda descartável!

Se eu havia entendido direito, os Estados Unidos estavam no Afeganistão para terminar com o grupo terrorista Al-Qaeda, que havia violado direitos humanos nos ataques de 11 de Setembro, e para terminar com este regime ele violava direitos humanos de pessoas humildes, subcontratando profissionais de Terceiro Mundo para trabalhar nas bases em condições semi-escravas.

Para mim foi inevitável não fazer a ligação da reportagem com o aniversário de 11 de Setembro.

Nos últimos dias, em Nova York, o 11 de Setembro é como aquela música que não sai do fundo do pensamento. Aquela que a gente cantarola sem querer. Nestes dias, todo mundo pensa que tem que pegar o metrô, parar pra almoçar, cortar as unhas, mandar um email, e que o 11 de Setembro aconteceu. A extensiva e detalhada cobertura da mídia relembra os mortos e heróis, mas muito pouco é dito sobre o que causou o ataque, e menos ainda sobre o que é preciso fazer para evitar outro. Aqui e ali foi feita a pergunta Por que os outros nos odeiam?, mas não foram tomadas medidas, ou levantadas discussões, sobre o que é preciso fazer para os outros pararem de odiar.

Subcontratar trabalhadores do Terceiro Mundo através do Pentágono, explorá-los e mandá-los pra casa depois de rôtos não vai aumentar o fã-clube dos americanos pelo mundo. E, na lista das Pessoas que Odeiam os Estados Unidos Muito Mesmo, e que podem vir a apoiar ataques ao país no futuro, podemos acrescentar os familiares dos dois mil trabalhadores do Terceiro Mundo mortos em bases militares, e os cinquenta e um mil que foram feridos e mandados para casa sem benefícios desde 2001, de acordo com a mesma reportagem da New Yorker.

Este é só um exemplo de tantos outros que aumentam o ódio mundial aos americanos. Sobra pra mim, que vim parar neste país por casualidade, e que nestes dias sinto a tensão de andar de metrô. E tenho na gaveta do trabalho um kit para usar caso aconteça um ataque terrorista, com lanterna, água, máscara e barras energéticas.

Talvez eu tenha uma visão mais global sobre o 11 de Setembro porque venha de outra cultura. É uma visão mais crítica, mas de forma alguma de ódio aos americanos. Este é um país incrível, generoso com as pessoas que estão em seu território, criativo, empreendedor, correto em tantas coisas. Mas parece que aqui existe o que há de melhor, e o que há de pior. Eu não consigo pensar só no que aconteceu aqui, mas no que aconteceu, acontece e acontecerá no resto do mundo como causa e conseqûencia dos ataques terroristas aos Estados Unidos.

É por isso que, no 11 de Setembro, eu penso nos 2,996 mortos dos atentados, e no mais de um milhão de civis mortos na guerra do Vietnam. Eu penso nos 1300 órfãos do ataque às Torres Gêmeas, e nos 5 milhões de órfãos da guerra do Iraque. Eu penso na tristeza dos americanos, e na tristeza dos chilenos, que há 38 anos no dia 11 de Setembro, perderam Salvador Allende assasinado num golpe militar – apoiado pelos Estados Unidos.

Há muitos mais mortos no meu 11 de Setembro. Destes mortos, 2,996 receberam obituários e biografias no New York Times, e milhões foram enterrados como indigentes, ou não enterrados, tendo simplesmente desaparecido da vida e da memória, porque faziam parte da história dos vencidos, e não da história dos vencedores.

Pra mim, o 11 de Setembro é um dia muito, muito mais triste.